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sábado, 31 de janeiro de 2009

ABRAHAM KUYPER por John Hendrik

O dr. Abraham Kuyper nasceu em Maassluis, na Holanda, em 29 de Outubro de 1837. Seus pais eram o Rev. Jan Hendrik e Heriette Huber Kuyper. Em Maassluis, e em Middelburg, onde seu pai foi chamado em 1849, freqüentou a escola. Seus professores, nos é dito, tomaram-no a princípio como um menino lento no entendimento. Eles devem ter mudado sua opinião quando, com a precoce idade de doze anos, estava habilitado a entrar no Ginásio em Middelburg. No tempo oportuno foi matriculado na Universidade de Leyden, na qual foi graduado com a mais alta honra. Foi também aqui que obteve seu Doutorado em Teologia Sagrada em 1863, quando estava com cerca de vinte e seis anos de idade.

Um ano mais tarde, começou seu ministério em Beesd; foi então chamado para Utrecht, e dali, em 1870, para Amsterdam. Em 1872, tornou-se Editor Chefe do De Standaard (O Estandarte), um jornal diário, e o órgão oficial do partido Anti-Revolucionário, que na política representa o contingente protestante da nação holandesa. Pouco depois ele assumiu a função de editor do De Heraut (O Arauto), um jornal semanal distintivamente cristão, publicado às sextas-feiras. Por mais de quarenta e cinco anos, ocupou ambas exigentes posições com extraordinário poder e vigor.

Em 1874, foi eleito membro da Casa Baixa do Parlamento, [1] função que exerceu até 1877. Em 1880, fundou a Universidade Livre de Amsterdam, a qual tomava a Bíblia como a base incondicional sobre a qual deveria ser erguida toda a estrutura do conhecimento humano em cada departamento da vida.

Então seguiram-se vinte anos de árduo labor, na Universidade e fora dela, quando alguns de seus maiores tratados foram escritos, cobrindo um período que pode bem ser considerado como tendo exercido uma influência muito importante na história eclesiástica e política de seu país. Foi por seu labor quase sobre-humano, não menos do que por sua força e nobreza de caráter, que deixou “pegadas nas areias do tempo” com tal indelével clareza que em 1907, quando de seu 70 º aniversário foi realizada uma celebração nacional, sendo dito: “A história da Holanda na igreja, no Estado, na imprensa, na escola e nas ciências dos últimos quarenta anos, não pode ser escrita sem a menção de seu nome em quase todas as páginas, pois durante este período a biografia do dr. Kuyper é, numa extensão considerável, a história da Holanda.”

Em 1898, ele visitou os Estados Unidos da América, onde proferiu as “Palestras Stone” no Seminário Teológico de Princeton. Foi então que a Universidade de Princeton conferiu a ele o Doutorado em Direito (São estas palestras que estão contidas nas páginas deste presente volume.).

Após seu retorno à Holanda, ele reassumiu seu trabalho como líder do partido Anti-Revolucionário, até que, em 1901, foi convocado pela Rainha Wilhelmina para formar um Ministério. Serviu como primeiro-ministro até 1905. A seguir, gastou mais de um ano em viagem, um relato descritivo da qual apareceu numa obra de dois volumes, Om de Oude Wereld-Zee (Ao Redor do Velho Mar Mundial), da qual toda edição foi vendida antes de ser impressa.

Depois disto, o dr. Kuyper residiu em Haia como Ministro de Estado, na opinião pública a figura mais importante na terra, e em alguns aspectos sem igual no mundo. Aos 75 anos de idade, começou uma série de artigos semanais na coluna do De Heraut: “Van de Voleinding” (Do fim do Mundo), 306 artigos ao todo. A série levou seis anos para ser completada. De Maasbode , uma publicação Católica Romana dos Países Baixos, refere-se a esta obra como, “a mais excepcional e sem rival em toda literatura sobre o assunto.” Referências ao fim do mundo são delineadas através de todos os livros da Bíblia, cuidadosamente expostas, enquanto o Apocalipse de João é tratado seção por seção. Quando estava com 82 anos, o velho dr. Kuyper estava traçando planos para outra grande obra sobre O Messias , mas o fim veio em 8 de Novembro de 1920.

Durante todos estes anos sua obra foi multiforme a um grau estarrecedor. Como tem sido dito: “Nenhum departamento do conhecimento humano era estranho a ele.” E quer o tomemos como estudante, pastor ou pregador; como lingüista, teólogo ou professor universitário; como líder de partido, organizador ou estadista; como filósofo, cientista, publicista, crítico ou filantropo – há sempre “algo incompreensível nos poderosos labores deste lutador incansável; sempre algo tão incompreensível quanto o gênio sempre é.” Mesmo aqueles que discordaram dele, e foram muitos, o honraram como “um oponente de dez cabeças e umas cem mãos.” Aqueles que compartilharam sua visão e seus ideais o apreciaram e o amaram “como um dom de Deus para nossa época.”

Qual era o segredo deste poder quase sobre-humano?

Em 1897, no 25º aniversário de sua função como editor do De Standaard , o dr. Kuyper disse: “Um desejo tem sido a paixão predominante de minha vida. Uma grande motivação tem agido como uma espora sobre minha mente e alma. E antes que seja tarde, devo procurar cumprir este sagrado dever que é posto sobre mim, pois o fôlego de vida pode me faltar. O dever é este: Que apesar de toda oposição terrena, as santas ordenanças de Deus serão estabelecidas novamente no lar, na escola e no Estado para o bem do povo; para esculpir, por assim dizer, na consciência da nação as ordenanças do Senhor, para que a Bíblia e a Criação dêem testemunho, até a nação novamente render homenagens a Deus.”

Poucos homens tiveram um ideal como este diante de si. Poucos homens foram tão obedientes às exigências de um tal propósito de vida como ele, pois literalmente deu seu próprio corpo, alma e espírito a este alto chamado. Ele procurava administrar bem seu tempo. Cada hora do dia e da noite tinha sua própria tarefa. Seus escritos contam mais de duzentas obras, muitas das quais de três e quatro volumes cada, e cobrem uma série extraordinária de assuntos.

Como homem, apreciava singularmente uma palavra ou ato de bondade por parte dos outros. O escritor desta nota fala aqui de uma experiência pessoal. O dr. Kuyper conhecia algo da santa arte de amar. Orgulhava-se de ser um homem do povo. É lembrado por muitos com admiração e gratidão, que embora pressionado por seus labores multifários, [2] nunca recusou audiência a qualquer um que viesse a ele para conselho ou ajuda.

O dr. Kuyper nunca reivindicou originalidade. Sua vida e labores não podem ser explicados somente por ele mesmo. Nos restringiremos aqui às correntes ocultas mais profundas de sua vida espiritual, como o segredo de seu poder fenomenal.

Nos seus primeiros anos, a vida religiosa em seu país estava em decadência. “A vida eclesiástica estava fria e formal. A religião estava quase morta. Não havia Bíblia nas escolas. Não havia vida na nação.”

Mas não eram raros os sinais de coisas melhores por vir. Já em 1830, Groen van Prinsterer, um membro do Parlamento começou a protestar contra o espírito dos tempos. “Isto produziu um reavivamento da proclamação do evangelho – que por natureza todos os homens são pecadores necessitando do sangue expiador de Cristo. Isto foi encarado como grande ofensa por muitos. Não demorou muito até que os evangélicos não fossem mais tolerados. Não era a irreligião que era procurada, mas uma religião que agradasse a cada um, inclusive os judeus.”

Por isso, quando o assunto deste esboço estava com um estudante universitário, não era de se estranhar que ele não sentisse inclinação para o ministério do evangelho. Ele disse que não tinha simpatia por uma igreja que espezinhou sua própria honra; nem por uma religião que era apresentada por uma igreja como essa. Ele acompanhou a corrente moderna, e entusiasticamente tomou parte em aplaudir o professor Rauwenhoff, que abertamente negou a ressurreição corporal de Jesus.

Uma série de experiências, contudo, produziu profunda impressão sobre o jovem erudito.

A Universidade de Groningen ofereceu um prêmio para o melhor ensaio sobre João de Lasco, o grande reformador polonês. Por recomendação de seus professores, Kuyper resolveu tornar-se um dos competidores. Imagine seu desapontamento quando após uma cuidadosa pesquisa em todas as grandes bibliotecas de seu país e nas de toda Europa não conseguiu o material necessário para o trabalho. Como último recurso, o dr. de Vries, um dos professores em Leyden, que tinha adquirido um profundo interesse pelo promissor jovem erudito, recomendou-lhe visitar seu pai em Haarlem (do dr. de Vries), visto que era um excelente estudante de História e tinha uma extensa biblioteca. Ele foi e ouviu o venerável pregador dizer que olharia em seus livros, mas que não tinha lembrança de jamais ter visto uma das obras de Lasco em sua coleção. Uma semana depois Kuyper retornou para a entrevista. Deixe-o contar por si mesmo a experiência daquela hora:

“Como eu posso fazer vocês participarem de meus sentimentos quando, sendo admitido ao venerável pregador, eu o ouvi dizer-me do modo mais simples, enquanto apontava para uma rica coleção de duodécimos [3] empilhados sobre uma mesa ao lado: ‘Isto é o que eu encontrei.' Eu mal pude acreditar em meus olhos. Tendo pesquisado em vão todas as bibliotecas na Holanda; tendo cuidadosamente examinado os catálogos das grandes bibliotecas em toda a Europa; tendo lido muitas vezes nas antologias e nos registros de livros raros nos quais os títulos das obras de Lasco estavam simplesmente copiados, sem as próprias obras jamais terem sido vistas; que suas obras, se ainda existe alguma, são extremamente raras; que a maioria delas, é quase certo, está perdida; que com uma possível exceção de duas ou três, ninguém as têm tido nas mãos por mais de duzentos anos – e então, como por um milagre, ser colocado face a face com a mais rica coleção Lasciana que poderia ser encontrada em qualquer biblioteca na Europa. Encontrar este tesouro, que era o ‘ser ou não ser' de meu estimado ensaio com um homem que tinha sido recomendado por um amigo fiel, mas que ainda não sabia que o tinha em sua posse e que a apenas uma semana atrás simplesmente mal se lembrava do nome Lasco – com toda sinceridade, quem em sua própria experiência deve ter tido uma surpresa como esta, conhecer o que significa ver um milagre divino confortá-lo em seu caminho.”

Seria desnecessário dizer que ele ganhou o prêmio. Mas a experiência fez mais – “ela o fez lembrar de Deus.” Ela lançou uma dúvida sobre seu racionalismo. Ele não poderia mais negar que havia algo como “o dedo de Deus.”

Outra experiência veio a ele por ocasião da leitura da famosa novela inglesa, O Herdeiro de Redcliffe, de Charlotte Yonge. Ele devorou o livro. E este deu-lhe uma impressão sobre a vida da igreja na Inglaterra, tal como estava faltando, quase completamente, à igreja na Holanda naquele tempo. Isto o colocou em contato com o profundo significado dos sacramentos, com o caráter impressionante da adoração litúrgica e com o que ele usou mais tarde para falar como “O Livro Anotado de Oração.” Mas, além e acima disso, ele sentiu em sua própria alma um reconhecimento irresistível da realidade de cada experiência espiritual pela qual o herói do livro, Filipe de Norville, passou. A total autocondenação do homem quebrantado de coração, de fato sua completa auto-aversão, o brilhante jovem estudante aplicou a si mesmo; isso tornou-se para ele um poder de Deus para a salvação.

Ponderando sobre essa experiência ele escreve: “O que minha alma passou naquele momento, somente vim a entender plenamente mais tarde; mas todavia naquela hora, não, naquele próprio momento, aprendi a desprezar o que anteriormente admirava, e a procurar o que anteriormente rejeitava. Vamos parar por aqui. Vocês conhecem o caráter permanente da impressão de uma experiência como esta; o que a alma encontra num conflito como este pertence àquele algo eterno, que apresenta-se para a alma anos mais tarde, forte e claramente definido, como se tivesse acontecido ontem.”

Mas, abaixo de Deus, foi o povo rural de sua primeira paróquia o instrumento para guiá-lo àquela plenitude de vida espiritual para a qual suas primeiras experiências apontavam. À medida que ministrava-lhes, admiravam seus talentos; e logo aprenderam a amá-lo pelo que era; mas colocaram-se sinceramente em oração conjunta e individual por sua inteira conversão a Cristo. “E,” como Kuyper escreve mais tarde, “sua fiel lealdade tornou-se uma bênção para meu coração, a ascensão da estrela da manhã da minha vida. Eu tinha sido tocado, mas não tinha ainda encontrado a Palavra de reconciliação. Em sua linguagem simples, trouxeram-me isto de forma absoluta, a única coisa na qual minha alma pode repousar. Eu descobri que as Santas Escrituras não somente fazem-nos encontrar a justificação pela fé, mas também mostram o fundamento de toda vida humana, as santas ordenanças que devem governar toda existência humana na Sociedade e no Estado.”

Assim começou sua vida cristã. Na cruz ele fez a grande rendição de si mesmo ao seu Salvador e ao seu serviço. “Dar testemunho de Cristo” tornou-se a paixão de sua vida: que Cristo é Rei em cada departamento da vida e a atividade humana era a diretriz que ele manteve soando em todos os seus escritos, discursos e labores. Quer como teólogo ou como estadista, como um líder na política, como presidente do sindicato cristão, como promotor da educação cristã, tudo foi feito com a ardente convicção de que: “Cristo governa não simplesmente pela tradição do que ele outrora foi, falou, fez e suportou; mas por um poder vivo que ainda agora, assentado como ele está à mão direita de Deus, exerce sobre terras e nações, gerações, famílias e indivíduos.”

Assim, o encontro de alguns livros perdidos, a leitura de uma novela, o ensino de um povo inculto, são as experiências que explicam, em parte, a grande obra do dr. Kuyper.

Quanto mais uma pessoa conhece o vasto escopo do variado labor desse grande homem, tanto mais profundamente impressionado fica com o extraordinário significado da produção devocional e mística de sua caneta. Profunda erudição teológica, grande habilidade política, perspicácia intelectual extraordinária em qualquer linha em geral não é tido ser compatível com a fé simples como de uma criança, discernimento místico e doçura de alma. Mas, nas palavras de um crítico de sua obra-prima devocional, Estar Perto de Deus , “Este livro de meditações refuta a idéia de que um teólogo profundo não pode ser um cristão afetuoso.” O próprio autor conta a história: “A comunhão de estar perto de Deus deve tornar-se realidade, na realização plena e vigorosa de nossa vida. Deve penetrar e dar cor a nossos sentimentos, nossas percepções, nossas sensações, nossos pensamentos, nossa imaginação, nossa vontade, nosso agir, nosso falar. Não deve colocar-se como um fator estranho em nossa vida, mas deve ser a paixão que inspira por toda existência.”

Na busca desse ideal, o dr. Kuyper gastou tempo para adicionar ao seu grande trabalho a produção de meditações devocionais toda semana. Ele escreveu mais de duas mil delas. São de um caráter inteiramente único. É dito sobre elas que formam uma literatura por si mesmas, e estão em sintonia com as melhores obras dos místicos holandeses, tais como Johannes Ruysbroek, Cornelius Jansinius, e Thomas de Kempis.

Com vigor quase imbatível, o dr. Kuyper continuou seu labor até bem perto do fim. Assistindo aos seus últimos momentos de vida, um amigo e colega perguntou-lhe: “Eu direi ao povo que Deus tem sido seu Refúgio e Fortaleza até o fim?” Embora fraco, a resposta veio imediatamente num distinto sussurro: “Sim, totalmente.”

NOTAS:

[1] - NT – Equivalente a nossa Câmara de Deputados.

[2] - NT – De muitos aspectos, variado.

[3] - NT – Refere-se ao tamanho das páginas usadas na publicação de um livro no período da Reforma. Uma página dividida em doze partes.

Fonte: Extraído da introdução do excelente livro “Calvinismo”, de Abraham Kuyper, publicado no Brasil pela Editora Cultura Cristã. Adquira o seu exemplar!

Fonte: http://www.monergismo.com/textos/biografias/bio_kuyper_hendrik.htm

ABRAHAM KUYPER: “A minha glória não darei a outrem”

Pelo Pr. Franklin Ferreira, RJ

UM TEMPO DE CONVULSÃO POLÍTICA E SOCIAL

Mesmo despontando hoje como uma grande força política, por causa de seu crescimento, os evangélicos brasileiros continuam nutrindo aversão à política. Principalmente por esta estar associada a homens corruptos, cristãos de campanha, mentiras eleitoreiras, apostasia, satisfação de interesses pessoais, que deixam o eleitor desconfiado das reais motivações que levam determinado candidato a lutar tanto por tal cargo. Unido a isto, temos uma fé afastada dos negócios do mundo, e então temos os destinos da sociedade entregue a incrédulos. Precisamos de um evangelho integral, que tenha uma palavra de juízo e graça para todas as esferas da vida humana, manifestando o Reino de Deus em nosso mundo. Um homem que é um modelo como um evangélico envolvido na política é Abraham Kuyper, e, segundo D.M. Lloyd-Jones, a obra deste homem “se ergue como um grande monumento à única oposição verdadeira a toda a idéia que está por trás da Revolução Francesa.”

A Revolução Francesa, ocorrida no final do século XVIII, criou sua própria religião, chamada a princípio de “Culto à Razão” e depois “Culto ao Ser Supremo”. Seus líderes achavam que a ciência e a razão inaugurariam uma nova era, tendo então uma política fortemente anti-cristã. Tudo que era cristão foi abolido. O homem se tornou o centro, não Deus. Não somente em questões ligadas ao Estado, como também em questões de religião. Criou-se um novo calendário e novas cerimônias ocuparam o lugar das antigas datas religiosas, e cultuava-se simultaneamente Jesus, Sócrates, Rousseau e Voltaire. O lema francês desta época era “Nem Deus nem mestre”, e mais tarde, por onde os exércitos de Napoleão Bonaparte passaram, deixaram esta idéia como legado. A vizinha Holanda, anteriormente uma fortaleza da fé bíblica, também foi influenciada por estes acontecimentos. Seu recém-coroado rei, o autoritário William I, buscou controlar a Igreja Reformada Holandesa, enfraquecendo sua doutrina, por meio do favorecimento da teologia liberal (tendo como princípio a negação de tudo que aparentasse ser miraculoso, como a inspiração e inerrância bíblica, a divindade de Cristo e sua ressurreição) que começava a chegar nas faculdades de Teologia.

SUA PEREGRINAÇÃO ESPIRITUAL

Abraham Kuyper nasceu no meio desta convulsão, na Holanda, em 1837, em Maassluis, filho de um ministro da Igreja Reformada Holandesa. Fez seu curso superior na Universidade de Leiden, onde recebeu seu grau de Doutor em Teologia em 1862. Quando estudante, absorveu muitas idéias antibíblicas adotadas por seus professores liberais. Em 1871 ainda lembrava, diante dos alunos da Universidade Livre, sua petulância espiritual, causa de seus deslizes passados: “Em Leiden eu me achava entre os que aplaudiram calorosa e ruidosamente quando nosso professor manifestou sua ruptura total com a fé na ressurreição de Cristo”, acrescentando porém: “Hoje a minha alma treme por causa de desonra que outrora infligi a meu Salvador”. Ele também escreveu mais tarde: “No mundo acadêmico eu não tinha defesa contra os poderes da negação teológica. Fui roubado da fé da minha infância. Era inconverso, arrogante e aberto a dúvidas.” A despeito disto, ele foi ordenado pastor de uma congregação em Beesd, um povoado de Gelderland, onde permaneceu por quatro anos. Durante seu pastorado em Beesd, Kuyper ministrou a pessoas que permaneceram fiéis a Cristo, algumas das quais possuíam um notável conhecimento das Escrituras. Kuyper disse mais tarde: “Quando sai da universidade e fui para lá {Beesd}, meu coração estava vazio.” Mas não permaneceu vazio, pois os membros de sua congregação oraram pelo seu pastor e assistiram à sua conversão. Uma jovem camponesa, Pietje Baltus, fazia objeções à pregação de Kuyper, e a sua influência alterou a vida dele para sempre. Esta jovem testemunhou a seu pastor sobre a graça de Deus em sua vida. Estimulou-o a estudar as confissões de fé reformadas, e expôs para seu pastor a Palavra de Deus. Ele se converteu, e depois testificou que ela e outros em Beesd foram os meios que Deus usou para levá-lo a Cristo. No estudo dos escritos dos reformadores ele conseguiu fortes argumentos bíblicos para fazer frente à influência da teologia liberal de sua época.

Em 1870, Abraham Kuyper mudou-se para Amsterdã, para se tornar pastor da famosa Nieuwekerk. Aquela cidade fora um baluarte da teologia liberal, mas multidões, que apreciavam o calor e paixão de sua ortodoxia vinham ouvir as pregações de Kuyper. Ele falou de seu sonho para a igreja holandesa: “A igreja que eu quero é reformada e democrática, livre e independente, e também totalmente organizada no ensino doutrinário, no culto formal e no ministério pastoral.” Ele exortava os cristãos a adotarem o princípio da “purificação e desenvolvimento contínuos. A Igreja Reformada está sempre reformando-se diante de Deus.” Por esta época, ele já era um dos líderes da ala ortodoxa da Igreja Reformada Holandesa. Ele trabalhou para ter uma igreja livre do controle do Estado, que poderia reformar-se e assim recuperar seu estado anterior. Para Kuyper, os cristãos de todas as épocas precisam ser constantemente vigilantes para preservarem a pureza da igreja de Cristo, pois “Satanás se opõe a Deus e, no desespero de sua impotência, imita tudo o que Deus faz, para ver se consegue destruir o Reino de Deus com os próprios instrumentos de Deus.”

Tendo um grande interesse na pureza da igreja visível, Kuyper seguia os reformadores, vendo a pregação da Palavra e a correta administração das ordenanças como as marcas da igreja verdadeira. Embora nenhum grupo cristão mantenha perfeitamente estas marcas, as falsas igrejas descartam a Palavra de Deus, pervertem o uso das ordenanças e opõem-se aos que amam a verdade, e em seu entender, a separação de tal igreja é necessária quando ela impede que seus membros obedeçam a Deus. Ele afirmou: “Satanás cria uma igreja para o Anticristo subvertendo as igrejas cristãs existentes”. James E. McGoldrick, professor de História no Coderville College, EUA, resume o pensamento de Kuyper sobre este assunto da seguinte forma: “Você não deve retirar o seu amor da sua igreja só porque ela está doente ou incapacitada, o fato de estar enferma clama por sua maior compaixão. Somente quando estiver morta e deixar de ser a sua igreja, e quando os gases venenosos da falsa igreja ameaçarem matá-lo, fuja do seu toque e retire dela o seu amor.” Como Kuyper mesmo disse: “Ninguém deve deixar a sua igreja a menos que tenha certeza de que ela se tornou a sinagoga de Satanás.” A degeneração da Igreja Reformada começou com indiferença doutrinária, descambando para a heresia e mau testemunho de seus membros. Como não ocorreram as mudanças que Kuyper e seus amigos queriam - antes, seus adversários se tornaram mais intransigentes - cerca de duzentas congregações (170.000 crentes!) formaram “A Igreja dos Tristes” (por causa da tristeza de terem de retirar-se de suas igrejas) em 1886. Ele escreveu muitos livros e artigos sobre teologia, filosofia, política, arte e questões sociais, nos quais procurava expressar um conceito cristão do mundo e da vida.

SEU ENVOLVIMENTO NA EDUCAÇÃO

Em seus esforços para reformar a igreja, Kuyper entendeu que a educação teológica era da maior importância, e a Universidade Livre de Amsterdã foi a resposta ao liberalismo que havia infectado as faculdades da Igreja Reformada. Quando a Universidade Livre iniciou suas atividades em 1880, Abraham Kuyper declarou em seu discurso inaugural: “Não existe sequer um centímetro de nossa natureza humana do qual Cristo, que é soberano de tudo, não proclame ‘Meu!’” Ele afirmou ainda que o cristão “não pensa por um só momento em se limitar à teologia e à contemplação, deixando as outras ciências como personagens inferiores, nas mãos dos não-crentes”, pelo contrário, “considerando isso como seu tema para conhecer Deus em todos os seus trabalhos, está consciente de ter sido chamado para penetrar com toda a energia do seu intelecto nas questões terrestres, tanto quanto nas questões celestiais”. Seu sermão estava baseado em Isaías 48.11: “A minha glória não darei a outrem”, indicando que quando nos omitimos na esfera educacional, deixando que Satanás proclame as suas filosofias abertamente e sem contestação, enquanto passivamente assistimos seus avanços em todas as esferas, estamos fazendo justamente o que Deus expressa não permitir: deixamos que sua glória seja dada a outrem! Esta Universidade foi fundada como o meio principal de promover uma reforma da igreja e da sociedade, alcançando “a restauração da verdade e da santidade no lugar do erro e do pecado.” Por acreditar que toda verdade vem de Deus, e que cada centímetro da criação pertence a Cristo, ele não apenas estabeleceu uma escola de teologia, mas uma universidade na qual todo o currículo, todas as artes e ciências eram parte de uma cosmovisão bíblica. Kuyper ensinou ali teologia, homilética, hebraico e literatura.

SUA VISÃO POLÍTICA

Sua crescente preocupação acerca das questões sociais e políticas da Holanda lançou-o na vida política. Em 1874 foi eleito ao parlamento como representante do recém-formado Partido Anti-Revolucionário, que foi o primeiro partido político moderno da Holanda. Para se candidatar, afastou-se do ministério. Em 1900, o partido Anti-Revolucionário chegou ao poder, e Kuyper se tornou primeiro-ministro. Seus alvos políticos abrangiam a extensão do voto, o reconhecimento do Estado sobre o direito dos cristãos de conduzirem suas próprias escolas e uma legislação social que ajudasse a proteger o povo trabalhador. Em 1905, após uma amarga campanha eleitoral, perdeu seu mandato, mas continuou a exercer sua influência política como redator de um jornal político. O objetivo deste diário era “elucidar todos os fatos concernentes ao problema social..., abrir os olhos do povo para um governo que, de um lado, provoca uma revolução que em seguida sufocará com sangue e, de outro lado, causa condições sociais tão anormais que boa parte da população mal consegue sobreviver.” Ele escreveu neste jornal até pouco antes de sua morte, em 1920. Kuyper disse: “O medo da política... não é cristão e não é ético”. Apesar de ter perdido as duas primeiras eleições que participou, não desistiu. “Conosco, o que importa não é a influência que temos agora, mas a que teremos daqui a cinqüenta anos... Quantos da próxima geração serão seguidores dos nossos princípios?” Sua teoria social e política da soberania de Deus sobre todas as esferas da vida humana é uma tentativa de limitar o poder de um Estado totalitário. Em seu pensamento, cada esfera da vida humana (Família, Igreja, Estado) tem sua própria área de responsabilidade, que é derivada diretamente de Deus, e as pessoas dentro de cada esfera, são responsáveis apenas perante Deus. Este princípio foi um baluarte contra toda forma de totalitarismo. Ele entendia, então, que a função do Estado era preservar na sociedade a justiça de Deus, como revelada em sua Palavra.

SUA VISÃO SOCIAL

Neste tempo, quando pensamos em ação social, podemos aprender do pensamento de Kuyper nesta área. Em 1871, deixou clara a compreensão de sua tarefa: “Lutar contra um mal social isolado ou resgatar os indivíduos, embora excelente, é muito diferente de agarrar o problema sócio-econômico em si com o sagrado entusiasmo da fé”, reconhecendo que os interesses comerciais, e não apenas os governamentais, podem oprimir os pobres. Falando no Parlamento, em 1874, defendeu a elaboração de um código de Leis que protegessem o trabalhador, numa época em que tais códigos não existiam. Em seguida, tirou do bolso um Novo Testamento e leu o texto de Tiago 5.1-11. Em meio à reação escandalizada, disse: “Se eu mesmo tivesse falado essas palavras, que lhes parecem radicais e revolucionárias, vocês poderiam se opor. Mas foram escritas por um apóstolo do Senhor. Como pode, pois, alguém confessar a Cristo e não defender o trabalhador quando reclama?” Em outra ocasião, afirmou: “Quando ricos e pobres se opõem uns aos outros, [Jesus] nunca fica do lado dos ricos, mas sempre do lado dos pobres... Ele se colocava invariavelmente contra os poderosos e aqueles que viviam luxuosamente, e a favor dos que sofriam e eram oprimidos.” André Bielér, professor de Ciências Econômicas da Universidade de Genebra, Suíça, diz: “É certo que o Evangelho não deixa de encorajar à paciência aqueles que sofrem injustiças ou que são oprimidos... Mas ter-se-á uma idéia muito falsa da doutrina evangélica se pensar que a paciência e a caridade cristãs sejam sinônimos de passividade diante da desordem social, de complacência para com a injustiça ou de indiferença diante da tirania. Muito pelo contrário. A luta contra toda forma de opressão, seja política, econômica ou social, é uma das exigências da Reforma, e decorre diretamente de sua teologia e de sua concepção do homem.”

O CRISTÃO NUMA ÉPOCA REVOLUCIONÁRIA

Devemos ter mais cristãos se candidatando à política. Agora, qual o perfil do candidato cristão? Precisamos cada vez menos de pessoas despreparadas, amadoras, ingênuas ou desonestas, que são eleitas por um voto corporativista, para representar os interesses de uma igreja particular, para fazer favores, conseguir emprego, telha, terreno ou tijolo para a congregação. Temos que ter, isto sim, mais pessoas preparadas, que tenham uma formação bíblica sólida e abrangente, que possam ir aos centros de decisão (sejam eles simples associações comunitárias, sindicatos, partidos políticos, assembléias legislativas ou palácios do governo) representando o Senhor da glória, para expansão de Seu reino, e para o bem comum da sociedade, sendo “sal da terra” e “luz do mundo”. Como Abraham Kuyper, precisamos de cristãos que tenham o desejo de termos uma igreja forte, ortodoxa e disciplinada e uma sociedade justa. Que tenham o lema de Kuyper: “Estimar a Deus como tudo, e todos os outros como nada.”

Fonte: http://www.thirdmill.org/files/portuguese/85455~9_18_01_4-02-11_PM~ABRAHAM_KUYPER.html

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